Há anos eu procuro 3 textos que li na minha adolescência e não consigo encontrar, se alguém (falo com você outro único leitor além de mim) souber pelo menos o nome do autor já fico satisfeito.
O primeiro é um conto sobre dois jovens que sofrem violência psicológica de seu pai, avô ou padrasto (perceberam que essa é uma das partes que eu não lembro). O mais velho, percebendo que o seu irmão caçula já não agüenta a pressão, decide matar seu pai, avô ou padrasto, envenenando-o. Depois de empeçonhar a bebida do dito cujo, sai para dar uma volta e quando retorna a polícia já está no local. O investigador já desconfia do rapaz e lhe pressiona para que confesse, ele confessa e a polícia finalmente, pergunta onde está a arma.
Eu desconfio que seja de Asimov mas essa é outra das incertezas que tenho.
É um texto pequeno sobre um rapaz que ao querer namorar uma garota no terraço da casa do pai dela, se vê incomodado pela lâmpada fluorescente instalada pelo pai da garota. Então decide deixar à porta da casa do atento sogro, uma lâmpada não-fluorescente e uma carta com as múltiplas vantagens de utilizar tal lâmpada.
O último texto é sobre um senhor que decide presentear sua noiva com um par de luvas e redige uma bela carta detalhada explicando o uso do par de luvas. O problema é que na loja se equivocam de caixa e entregam uma calcinha no embrulho.
Alguém por aí tem alguma idéia sobre algum desses textos?
Obrigado.
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11 setembro, 2008 no 0:58
Van, não conheço esses textos. Lembra se você leu em revistas? Se foi na Seleções, podemos investigar.
Olha, lembrei de um texto entitulado “Oito vacas por uma noiva” que li numa daquelas Seleções antigas que tínhamos em casa. Lembra dessa história? É contada por um americano que foi à India, onde as moças que vão casar são trocadas por vacas. Os pretendentes dão vacas aos futuros sogros em troca da noiva. Quanto mais vacas, mais bonitas as noivas. Acho que as mais lindas valiam, no máximo, três vacas, mas um rapaz apaixonado pagou por uma moça feia o dote de oito vacas e se casou com ela. Quando o americano foi conhecer a esposa do indiano, ela havia se transformado na mulher mais linda que ele havia visto, por causa do amor do rapaz. Chorei tanto quando li! Já procurei muito nas revistas e na internet. Tenho certeza que vou achar.
Beijos.
11 setembro, 2008 no 20:41
Vai fazer uma imagem para o cabeçalho do Coisas? Nem acredito! Vou usar, com certeza. Fiz uns orçamentos com uns artistas aí, mas não posso pagar agora.
Aguardo.
E a história das vacas, eu quero saber onde encontro.
É cineasta agora? Quero ver o filme.
14 setembro, 2008 no 8:14
Van, vou hoje para São Paulo, volto em uma semana.
Beijos.
18 setembro, 2008 no 11:25
Eu lembro bem do terceiro texto. Ei-lo:
O namorado está em Nova Iorque e resolve mandar uma lembrança para a namorada.
Entra em uma loja e escolhe um finíssimo par de luvas. Pede para a balconista embrulhar enquanto vai ao caixa. Descuidadamente, a balconista entrega-lhe outro embrulho, com uma calcinha bem sexy.
Sem saber do engano, o namorado envia o presente com um bilhete:
- Querida: para mostrar que, mesmo estando longe, não me esqueço de você, envio-lhe esta surpresa; mesmo sabendo que você não usa, pois sempre que saímos juntos, nunca vi. Gostaria de estar aí para ajudá-la a vestir. Fiquei em dúvida quanto à cor, mas a balconista disse que esta não desbota nem mancha. Ela experimentou para eu ver e ficou muito bem, apenas um pouco larga na frente, mas ela disse que é para os dedos mexerem mais à vontade e a mão entrar mais facilmente. Depois de usá-la, vire pelo avesso e ponha talco para evitar o mau cheiro. Espero que fique satisfeita tanto quanto eu, pois ela vai cobrir aquilo que em breve lhe pedirei.
18 setembro, 2008 no 21:25
[...] Cirilo passou por aqui e já encontrou um dos textos que eu procurava. [...]
3 março, 2009 no 14:12
OITO VACAS POR UMA NOIVA
Um dia, meti-me num barco e fui visitar Kiniwata, uma ilha no Pacífico. Levava comigo um bloco de notas, que, no regresso, vinha recheado de apontamentos sobre a fauna e a flora, os costume e os trajes indígenas. Mas de todas as anotações que fiz, a única que ainda hoje me interessa é a que diz: “Johnny Lingo deu oito vacas ao pai de Sarita.” Podia rasgá-la pois sei-a de cor e salteada. A ponto de saltar-me de imediato à memória sempre que vejo uma mulher depreciar o marido ou uma esposa ficar-se perante o desprezo do marido. A essas mulheres gostaria de poder dizer: “Era bom que soubessem porque é que Johnny Lingo pagou oito vacas pela mulher.”
Johnny Lingo não era bem o nome dele. Mas era assim que lhe chamava Shenkin, o dono da pensão de Kiniwata. Shenkin era de Chicago e tinha a mania de americanizar os nomes dos ilhéus. Mas, a propósito das mais diversas coisas, muita gente referia, invariavelmente, o nome de Johnny. Se eu quisesse passar uns dias na ilha de Nurabandi, ali ao lado, Johnny Lingo era a pessoa para me hospedar em sua casa. Se quisesse pescar, só ele saberia indicar-me o local para o peixe morder a isca. Se era pérolas que procurava, ele me indicaria onde fazer uma boa compra. Toda a gente em Kiniwata tinha por Johnny Lingo uma grande consideração. No entanto, sempre que falavam dele, não podiam deixar de sorrir com um sorriso ligeiramente trocista.
- Pergunte por Johnny Lingo, peça-lhe que a ajude a encontrar o que procura e deixe que seja ele a discutir o preço – aconselhou Shenkin. – Ele tem jeito para o negócio.
- Johnny Lingo! – repetiu com uma gargalhada um rapaz sentado ali perto.
- Mas afinal que é que se passa? – perguntei.
- Toda a gente me diz para procurar Johnny Lingo e depois desatam a rir. Onde é que está a piada?
- Oh!, as pessoas gostam de rir – disse Shenkin, encolhendo os ombros. – Johnny é o rapaz mais esperto e mais forte das ilhas. E, para a idade que tem, o mais rico.
- Mas se ele tem tudo isso, qual é o motivo da risota?
- É por causa de uma coisa. Há cinco meses, no festival do Outono, Johnny veio a Kiniwata e arranjou uma mulher. Pagou oito vacas ao pai dela!
Eu já conhecia suficientemente os costumes da ilha para não ficar espantada. Duas ou três vacas davam para comprar uma mulher assim, assim, quatro ou cinco para uma que se visse.
- Meu Deus! – disse eu. – Oito vacas! Ela deve ser de se lhe tirar o chapéu.
- Não é propriamente feia – admitiu ele sorrindo. – Com boa vontade, o mais que se pode dizer é que Sarita é feiosa. O pai, Sam Karoo, tinha receio que ela ficasse solteira.
- E conseguiu que lhe dessem oito vacas por ela? Não é possível!
- Nunca ninguém pagou isso.
- E ainda dizem que a mulher de Johnny é feiosa?
- Eu disse que, com boa vontade, podemos dizer que é feiosa. Ela era escanzelada. Caminhava de ombros arqueados e de cabeça inclinada. Tinha medo da própria sombra.
- Bem – disse eu – isso só prova que o amor não tem preço.
- É bem verdade – concordou o homem. – E é por isso que os aldeões se riem quando se fala de Johnny. Sentem-se vingados por o negociante mais astuto das ilhas ter sido enganado pelo velho e simplório Sam Karoo.
- Enganado, como?
- Ninguém sabe e todos se interrogam. Os primos de Sam aconselharam-no a pedir três vacas e. depois, ficar-se por duas até ter a certeza de que Johnny lhe pagaria apenas uma. Então Johnny foi ter com Sam Karoo e disse: “Pai de Sarita, ofereço-lhe oito vacas pela sua filha.”
Oito vacas – murmurei. – Gostava de conhecer esse tal Johnny Lingo.
Eu queria comprar peixe. E também pérolas. Por isso, na tarde do dia seguinte fui até Nurabandi.
Reparei que, quando perguntava o caminho para a casa de Johnny, o seu nome não provocava sorrisos maliciosos nos habitantes da ilha. E quando conheci o jovem, esbelto e formal, que, com a maior educação, me convidou para sua casa, fiquei contente por ele ser respeitado pela gente da sua ilha. Sentámo-nos e conversámos. Então ele perguntou:
- Vem de Kiniwata?
- Venho.
- Falam de mim lá na ilha?
- Dizem que só você pode ajudar-me a encontrar tudo o que eu quiser.
Ele sorriu delicadamente.
- A minha mulher é de Kiniwata.
- Eu sei.
- Eles falam dela?
- Às vezes.
- E que é que dizem?
- Bom, apenas… – A pergunta apanhou-me desprevenida. – Contaram-me que se casaram por alturas do festival.
- Mais nada?
A curva das suas sobrancelhas diziam-me que ele sabia que tinha de haver mais.
- Também dizem que o casamento foi acordado em oito vacas. – Fiz uma pausa. – Ainda hoje não sabem porquê.
- Eles dizem isso? – Os seus olhos iluminaram-se de prazer. – Toda a gente em Kiniwata sabe das oito vacas?
Fiz que sim com a cabeça.
- E em Nurabandi também sabem – disse, inchando o peito de satisfação. – Daqui para a frente, sempre que se falar de acordos nupciais, as pessoas hão de lembrar-se de que Johnny Lingo pagou oito vacas por Sarita.
Então é essa a resposta, pensei: vaidade.
Foi então que a vi. Ela entrou na sala para pôr flores na mesa. Demorou-se um momento para sorrir ao jovem que estava ao meu lado. E voltou a sair, apressada. Era a mulher mais bela que me fora dado ver. O aprumo dos seus ombros, a inclinação do queixo, o brilho dos olhos, espelhavam um orgulho a que ninguém podia tirar-lhe o direito.
Voltei-me para Johnny Lingo e dei com ele a observar-me.
- Achou-a bonita? – perguntou.
- É…é divina. Mas não é a Sarita de Kiniwata. – disse eu.
- Sarita só há uma. Talvez esteja diferente do que dizem que ela era em Kiniwata.
- Pode crer. Ouvi dizer que ela era feiosa, sem graça. Todos troçam de si por se ter deixado enganar por Sam Karoo.
- Acha que oito vacas foi demais? – Passou-lhe um sorriso pelos lábios.
- Não. Mas como é que ela pode estar tão diferente?
- Já alguma vez pensou – perguntou ele – o que deve significar para uma mulher saber que o marido ficou com ela pelo preço mais baixo possível? E depois. mais tarde, em conversas de mulheres, elas gabam-se do que os maridos deram por elas. Uma diz que foram quatro vacas, outras talvez seis. Que sentirá aquela que foi vendida por uma ou duas? Isso não podia acontecer com a minha Sarita.
- Então foi simplesmente para fazer a sua mulher feliz?
- Queria ver Sarita feliz, sim. Mas queria mais do que isso. Você diz que ela está diferente. É verdade. Muitas coisas podem mudar numa mulher. Coisas que acontecem dentro delas e coisas cá de fora. Mas o mais importante de tudo é o que ela pensa de si própria. Em Kiniwata, Sarita acreditava que não valia nada. Agora sabe que vale mais do que qualquer outra mulher das ilhas.
- Então você queria…
- Queria casar com Sarita. Amava-a a ela e a nenhuma outra.
- Quer dizer… – Estava quase a perceber.
- Isso mesmo – rematou ele com ternura -, queria uma mulher que valesse oito vacas.
Fonte: http://www.pregai.hpg.ig.com.br/men_8vacas_1noiva.html